Dia 26 de Fevereiro - Domingo
I DOMINGO DA QUARESMA
(Roxo, Creio, Prefácio Próprio – I Semana do Saltério)
Antífona da entrada: Quando meu servo chamar, hei de atendê-lo, estarei com ele na tribulação. Hei de livrá-lo e glorificá-lo e lhe darei longos dias (Sl 90,15s).
Oração do dia
Concedei-nos, ó Deus onipotente, que, ao longo desta Quaresma, possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
Leitura (Gênesis 9,8-15)
Leitura do livro do Gênesis.
9 8 Disse também Deus a Noé e as seus filhos:
9 “Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade,
10 assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra.
11 Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra.”
12 Deus disse: “Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras:
13 Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra.
14 Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens,
15 e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura".
Palavra do Senhor.
Salmo responsorial 24/25
Verdade e amor são os caminhos do Senhor.
Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos
e fazei-me conhecer a vossa estrada!
Vossa verdade me oriente e me conduza,
porque sois o Deus da minha salvação.
Recordai, Senhor meu Deus, vossa ternura
e a vossa compaixão, que são eternas!
De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia
e sois bondade sem limite, ó Senhor!
O Senhor é piedade e retidão
e reconduz ao bom caminho os pecadores.
Ele dirige os humildes na justiça
e aos pobres e ele ensina o seu caminho.
Leitura (1 Pedro 3,18-22)
Leitura da primeira carta de São Pedro.
3 18 Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados - o Justo pelos injustos - para nos conduzir a Deus. Padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito.
19 É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos no cárcere, àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes,
20 quando Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, apenas oito se salvaram através da água.
21 Esta água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela ressurreição de Jesus Cristo.
22 Esse Jesus Cristo, tendo subido ao céu, está assentado à direita de Deus, depois de ter recebido a submissão dos anjos, dos principados e das potestades.
Palavra do Senhor.
Evangelho (Marcos 1,12-15)
Louvor e glória a ti, Senhor, Cristo, palavra de Deus.
O homem não vive somente de pão, mas de toda a palavra da boca de Deus (Mt 4,4)
Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos.
12 E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto.
13 Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam.
14 Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galiléia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia:
15 "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho."
Palavra da Salvação.
Comentário ao Evangelho
Em Marcos, esta narrativa da tentação parece ser o prenúncio simbólico o ministério de Jesus, prestes a se iniciar: a agressão sucessiva dos líderes religiosos que se colocam como seus adversários é a provação de satanás e o convívio com as feras; e o conforto da fraternidade dos discípulos, iniciados no seu aprendizado, é o serviço dos anjos. Mateus e Lucas apresentam a tentação por satanás em três etapas. Transformar pedras em pães, adorar o tentador e apossarse do mundo, e atirar-se do alto do Templo desafiando a Deus. São as características de um messias que tem soluções enganosas para as aspirações populares, que se apossa do poder e que ostenta uma condição divina. Tal messianismo é descartado por Jesus. O Espírito recebido no batismo conduz Jesus, o qual vence as tentações. As tentações foram associadas à narrativa do batismo de Jesus como pedagogia catequética: os neobatizados devem estar preparados e fortalecidos para enfrentar as tentações após terem recebido seu batismo. As duas primeiras leituras de hoje são alusivas ao batismo: "Nesta arca [de Noé], umas poucas pessoas... foram salvas, por meio da água. À água corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação". Pode-se ver que, em sua leitura alegórica do dilúvio, o autor da Primeira Carta de Pedro se ateve ao segundo momento do dilúvio, quando Noé e os seus sobrevivem, após a destruição total pelas águas. O tempo litúrgico da quaresma, que se inicia hoje, tem uma característica de tempo forte de conversão. Resistir às tentações que se apresentam agradáveis aos sentidos, ao conforto, à segurança, à vaidade, estimulando o sucesso pessoal no usufruto do poder, levando à indiferença pelo próximo humilde e sofredor. É tempo de voltar-se amorosamente para o nosso próximo, particularmente aquele excluído e empobrecido, na partilha e na comunhão de vida.
(O comentário litúrgico é feito pelo Pe. Jaldemir Vitório – Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica, Professor da FAJE, e disponibilizado neste Portal a cada mês)
Sobre as oferendas
Fazei, ó Deus, que o nosso coração corresponda a estas oferendas com as quais iniciamos nossa caminhada para a Páscoa. Por Cristo, nosso Senhor.
Prefácio próprio
A Tentação do Senhor
Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso. Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a páscoa definitiva. Enquanto esperamos a plenitude eterna, com os anjos e todos os santos, nós vos aclamamos, cantando (dizendo) a uma só vos...
Antífona da comunhão: Não só de pão vive o homem, as de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4,4).
Depois da comunhão
Ó Deus, que nos alimentastes com este pão que nutre a fé, incentiva a esperança e fortalece a caridade, dai-nos desejar Cristo, pão vivo e verdadeiro, e viver de toda palavra que sai de vossa boca. Por Cristo, nosso Senhor.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Oração
Redescobrir a oração: exercício para alcançar qualidade de vida
A oração é um exercício fundamental na busca pela qualidade de vida. Nas indicações que não podem faltar, especialmente para a vida cristã, estão a prática e o cultivo disciplinado da oração. É um exercício que tem força incomparável em relação às diversas abordagens de autoajuda, como livros e DVDs, muito comuns na atualidade.
A crise existencial contemporânea, em particular na cultura ocidental, precisa redescobrir o caminho da oração para uma vida de qualidade. Equivocado é o entendimento que pensa a oração como prática exclusiva de devotos. A oração guarda uma dimensão essencial da vida cristã. Cultivar essa prática é um segredo fundamental para reconquistar a inteireza da própria vida e fecundar o sentido que a sustenta.
É muito oportuno incluir entre as diversificadas opiniões, junto aos variados assuntos discutidos cotidianamente, o que significa e o que se pode alcançar pelo caminho da oração. Perdê-la como força e não adotá-la como prática diária é abrir mão de uma alavanca com força para mover mundos. A fé cristã, por meio da teologia, tem por tradição abordar a importância da oração ao analisar a sua estrutura fundamental, seus elementos constitutivos, suas formas e os modos de sua experiência. Trata-se de uma importante ciência e de uma prática rica para fecundar a fé.
Assista: Catequese do Papa Bento XVI sobre a oração.
A oração tem propriedades para qualificar a vida pessoal, familiar, social e comunitária. Muitos podem desconhecer, mas ela [oração] pode ser um laço irrenunciável com o compromisso ético. É prática dos devotos, mas também um estímulo à cidadania. Ao contrário de ser fuga das dificuldades, é clarividência e sabedoria, tão necessários no enfrentamento dos problemas. Na verdade, a prece faz brotar uma fonte interior de decisões, baseadas em valores com força qualitativa.
A oração, como prática e como inquestionável demanda, no entanto, passa por uma crise por razões socioculturais. Aliás, uma crise numa cultura ocidental que nunca foi radicalmente orante. O secularismo e a mentalidade racionalista se confrontam com aspectos importantes da vida oracional, como a intercessão e a contemplação. Diante desse cenário, é importante sublinhar: paga-se um preço muito alto quando se configura o caminho existencial distante da dimensão transcendente. O distanciamento, o desconhecimento e a tendência de banir o divino como referencial produzem vazios que atingem frontalmente a existência.
É longo o caminho para acertar a compreensão e fazer com que todos percebam o horizonte rico e indispensável da oração. Faz falta a clareza de que existem situações e problemas que a política, a ciência e a técnica não podem oferecer soluções, como o sentido da vida e a experiência de uma felicidade duradoura. A oração é caminho singular. É, pois, indispensável aprender a orar e cultivar a disciplina diária da oração. Trata-se de um caminhar em direção às raízes e ao essencial. Nesse caminho está um remédio indispensável para o mundo atual, que proporciona mais fraternidade e experiências de solidariedade.
A lógica dominante da sociedade contemporânea está na contramão dessa busca. Os mecanismos que regem o consumismo e a autossuficiência humana provocam mortes. Sozinho, o progresso tecnológico, tão necessário e admirável, produz ambiguidades fatais e inúmeras contradições. Orar desperta uma consciência própria de autenticidade. Impulsiona à experiência humilde do próprio limite e inspira a conversão. É recomendação cristã determinante dos rumos da vida e de sua qualidade. A Igreja Católica tem verdadeiros tesouros, na forma de tratados, de estudos, de reflexões, e de indicações para o cultivo da oração, que remetem à origem do Cristianismo, quando os próprios discípulos pediram a Jesus: “Ensina-nos a orar”. É uma tarefa missionária essencial na fé, uma aprendizagem necessária, um cultivo para novas respostas na qualificação pessoal e do tecido cultural sustentador da vida em sociedade.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
A oração é um exercício fundamental na busca pela qualidade de vida. Nas indicações que não podem faltar, especialmente para a vida cristã, estão a prática e o cultivo disciplinado da oração. É um exercício que tem força incomparável em relação às diversas abordagens de autoajuda, como livros e DVDs, muito comuns na atualidade.
A crise existencial contemporânea, em particular na cultura ocidental, precisa redescobrir o caminho da oração para uma vida de qualidade. Equivocado é o entendimento que pensa a oração como prática exclusiva de devotos. A oração guarda uma dimensão essencial da vida cristã. Cultivar essa prática é um segredo fundamental para reconquistar a inteireza da própria vida e fecundar o sentido que a sustenta.
É muito oportuno incluir entre as diversificadas opiniões, junto aos variados assuntos discutidos cotidianamente, o que significa e o que se pode alcançar pelo caminho da oração. Perdê-la como força e não adotá-la como prática diária é abrir mão de uma alavanca com força para mover mundos. A fé cristã, por meio da teologia, tem por tradição abordar a importância da oração ao analisar a sua estrutura fundamental, seus elementos constitutivos, suas formas e os modos de sua experiência. Trata-se de uma importante ciência e de uma prática rica para fecundar a fé.
Assista: Catequese do Papa Bento XVI sobre a oração.
A oração tem propriedades para qualificar a vida pessoal, familiar, social e comunitária. Muitos podem desconhecer, mas ela [oração] pode ser um laço irrenunciável com o compromisso ético. É prática dos devotos, mas também um estímulo à cidadania. Ao contrário de ser fuga das dificuldades, é clarividência e sabedoria, tão necessários no enfrentamento dos problemas. Na verdade, a prece faz brotar uma fonte interior de decisões, baseadas em valores com força qualitativa.
A oração, como prática e como inquestionável demanda, no entanto, passa por uma crise por razões socioculturais. Aliás, uma crise numa cultura ocidental que nunca foi radicalmente orante. O secularismo e a mentalidade racionalista se confrontam com aspectos importantes da vida oracional, como a intercessão e a contemplação. Diante desse cenário, é importante sublinhar: paga-se um preço muito alto quando se configura o caminho existencial distante da dimensão transcendente. O distanciamento, o desconhecimento e a tendência de banir o divino como referencial produzem vazios que atingem frontalmente a existência.
É longo o caminho para acertar a compreensão e fazer com que todos percebam o horizonte rico e indispensável da oração. Faz falta a clareza de que existem situações e problemas que a política, a ciência e a técnica não podem oferecer soluções, como o sentido da vida e a experiência de uma felicidade duradoura. A oração é caminho singular. É, pois, indispensável aprender a orar e cultivar a disciplina diária da oração. Trata-se de um caminhar em direção às raízes e ao essencial. Nesse caminho está um remédio indispensável para o mundo atual, que proporciona mais fraternidade e experiências de solidariedade.
A lógica dominante da sociedade contemporânea está na contramão dessa busca. Os mecanismos que regem o consumismo e a autossuficiência humana provocam mortes. Sozinho, o progresso tecnológico, tão necessário e admirável, produz ambiguidades fatais e inúmeras contradições. Orar desperta uma consciência própria de autenticidade. Impulsiona à experiência humilde do próprio limite e inspira a conversão. É recomendação cristã determinante dos rumos da vida e de sua qualidade. A Igreja Católica tem verdadeiros tesouros, na forma de tratados, de estudos, de reflexões, e de indicações para o cultivo da oração, que remetem à origem do Cristianismo, quando os próprios discípulos pediram a Jesus: “Ensina-nos a orar”. É uma tarefa missionária essencial na fé, uma aprendizagem necessária, um cultivo para novas respostas na qualificação pessoal e do tecido cultural sustentador da vida em sociedade.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
Jejum? OU Regime?
Qual a diferença? Durante a Quaresma a Igreja nos propõe um momento de reflexão. É o tempo para oferecermos algo que nos é importante como um sacrifício para que nos tornemos melhores cristãos. O que decidirmos oferecer deverá fazer com que, após esse tempo, tenhamos nos tornado melhores.
Muitas pessoas, durante esse período, decidem não comer chocolate durante 40 dias como uma forma de “penitência” e no Domingo de Páscoa quase morrem de indigestão de tantos ovos de chocolate que consomem. Muitos dizem aproveitar essa época para fazer um “regime”, pois somente assim conseguem ficar longe dessa tentação [chocolate].
Mas vamos refletir melhor sobre qual o sentido da penitência quaresmal: fazer com que, depois desse período de abstinência, tenha ocorrido alguma mudança no seu interior. De que adianta ficar 40 dias sem comer um alimento se depois ele for consumido em dobro? O que mudou em você? Apenas a contagem regressiva para chegar ao Domingo de Páscoa e poder comer os famosos ovos de Páscoa, certo? Que tal mudarmos o foco da penitência e fazer com que uma mudança de comportamento alimentar, durante a Quaresma, traga não apenas benefícios para nossa saúde física como também para a psíquica e espiritual?
Todos sabem que durante esse tempo, às sextas-feiras, devemos comer peixe, mas você já pensou em aumentar o consumo desse tipo de proteína como uma forma de penitência? Que tal colocá-lo no cardápio da família pelo menos 3 vezes durante a semana? Incrível como nos esquecemos de comer esse tipo de carne. Todas as vezes em que pergunto aos meus pacientes se eles comem carne de peixe eles respondem que até gostam, mas não têm o hábito de consumir esse alimento mais vezes na semana. Pois aqui está uma ótima oportunidade para uma mudança de comportamento alimentar e você vai notar que, após o tempo quaresmal, sentirá falta dessa importante fonte de proteína e a incluirá mais vezes no cardápio de sua casa.
Dra. Gisela Savioli
Nutricionista clínica, escritora
Muitas pessoas, durante esse período, decidem não comer chocolate durante 40 dias como uma forma de “penitência” e no Domingo de Páscoa quase morrem de indigestão de tantos ovos de chocolate que consomem. Muitos dizem aproveitar essa época para fazer um “regime”, pois somente assim conseguem ficar longe dessa tentação [chocolate].
Mas vamos refletir melhor sobre qual o sentido da penitência quaresmal: fazer com que, depois desse período de abstinência, tenha ocorrido alguma mudança no seu interior. De que adianta ficar 40 dias sem comer um alimento se depois ele for consumido em dobro? O que mudou em você? Apenas a contagem regressiva para chegar ao Domingo de Páscoa e poder comer os famosos ovos de Páscoa, certo? Que tal mudarmos o foco da penitência e fazer com que uma mudança de comportamento alimentar, durante a Quaresma, traga não apenas benefícios para nossa saúde física como também para a psíquica e espiritual?
Todos sabem que durante esse tempo, às sextas-feiras, devemos comer peixe, mas você já pensou em aumentar o consumo desse tipo de proteína como uma forma de penitência? Que tal colocá-lo no cardápio da família pelo menos 3 vezes durante a semana? Incrível como nos esquecemos de comer esse tipo de carne. Todas as vezes em que pergunto aos meus pacientes se eles comem carne de peixe eles respondem que até gostam, mas não têm o hábito de consumir esse alimento mais vezes na semana. Pois aqui está uma ótima oportunidade para uma mudança de comportamento alimentar e você vai notar que, após o tempo quaresmal, sentirá falta dessa importante fonte de proteína e a incluirá mais vezes no cardápio de sua casa.
Dra. Gisela Savioli
Nutricionista clínica, escritora
A fé perseguida
"nenhuma fé religiosa foi tão perseguida quanto o cristianismo”
Em recente intervenção durante inauguração da 5ª Jornadas Católicas e Vida pública, em Sevilha, na Espanha, o arcebispo local, Dom Juan José Asenjo, comentou a respeito dos milhões de cristãos que padecem em todo o mundo em razão da intolerância religiosa.
Sevilha, 25 fev (SIR/Gaudium Press) - Segundo o prelado, a cada cinco minutos um cristão é assassinado no mundo por causa de sua fé e a cada ano, 105 mil são condenados ao martírio.
Trata-se de "um verdadeiro holocausto de que ninguém fala", declarou. Dom Juan José Asenjo destacou que a situação dos cristãos tem piorado no mundo inteiro, mas especialmente nas regiões onde o fundamentalismo islâmico tem ganhado força. A respeito da Europa e, particularmente, da Espanha, Dom Asenjo declarou que não há situações de intolerância religiosa como em outros países. Contudo, segundo ele, há limitações desta ordem bem mais subliminares. Como exempl o, o bispo citou o caso da retirada de símbolos religiosos em escolas, hospitais, e lugares públicos.
Tal fato é "uma contradição em uma sociedade que quer ser mais aberta, plural e tolerante, mas a tolerância não se constrói sobre a prévia aniquilação dos símbolos da fé, mas sobre sua respeitosa aceitação como expressão das crenças e da fé religiosa que deu vida e sentido à historia de nossas comunidades e nosso povo".
Como exemplo da intolerância religiosa na Espanha, Dom Asenjo também se referiu à "violação da liberdade religiosa" presente na lei da Educação para a Cidadania, ou a recente decisão do Governo basco de proibir a emissão de uns spots publicitários na televisão autônoma, nos quais se anima os pais a inscrever seus filhos nas aulas de ensino religioso. Para o arcebispo de Sevilha estas iniciativas têm raízes históricas que se concentram no "ódio ao cristianismo e a Igreja, mais além do que pretextos possíveis e mais ou menos inverossímeis que os historiadores acrescentaram para justificar estas condutas".
Por fim, fazendo sua defesa final, Dom Asenjo afirmou que fora o cristianismo nenhuma outra forma religiosa foi tão perseguida "com o acinte e o rancor com que tem sido perseguido o cristianismo ao longo de 20 séculos em todas as latitudes geográficas". As 5º Jornadas Católicas e Vida pública foram realizadas entre 17 e 19 de fevereiro com tema geral "Liberdade religiosa e vida pública".
Em recente intervenção durante inauguração da 5ª Jornadas Católicas e Vida pública, em Sevilha, na Espanha, o arcebispo local, Dom Juan José Asenjo, comentou a respeito dos milhões de cristãos que padecem em todo o mundo em razão da intolerância religiosa.
Sevilha, 25 fev (SIR/Gaudium Press) - Segundo o prelado, a cada cinco minutos um cristão é assassinado no mundo por causa de sua fé e a cada ano, 105 mil são condenados ao martírio.
Trata-se de "um verdadeiro holocausto de que ninguém fala", declarou. Dom Juan José Asenjo destacou que a situação dos cristãos tem piorado no mundo inteiro, mas especialmente nas regiões onde o fundamentalismo islâmico tem ganhado força. A respeito da Europa e, particularmente, da Espanha, Dom Asenjo declarou que não há situações de intolerância religiosa como em outros países. Contudo, segundo ele, há limitações desta ordem bem mais subliminares. Como exempl o, o bispo citou o caso da retirada de símbolos religiosos em escolas, hospitais, e lugares públicos.
Tal fato é "uma contradição em uma sociedade que quer ser mais aberta, plural e tolerante, mas a tolerância não se constrói sobre a prévia aniquilação dos símbolos da fé, mas sobre sua respeitosa aceitação como expressão das crenças e da fé religiosa que deu vida e sentido à historia de nossas comunidades e nosso povo".
Como exemplo da intolerância religiosa na Espanha, Dom Asenjo também se referiu à "violação da liberdade religiosa" presente na lei da Educação para a Cidadania, ou a recente decisão do Governo basco de proibir a emissão de uns spots publicitários na televisão autônoma, nos quais se anima os pais a inscrever seus filhos nas aulas de ensino religioso. Para o arcebispo de Sevilha estas iniciativas têm raízes históricas que se concentram no "ódio ao cristianismo e a Igreja, mais além do que pretextos possíveis e mais ou menos inverossímeis que os historiadores acrescentaram para justificar estas condutas".
Por fim, fazendo sua defesa final, Dom Asenjo afirmou que fora o cristianismo nenhuma outra forma religiosa foi tão perseguida "com o acinte e o rancor com que tem sido perseguido o cristianismo ao longo de 20 séculos em todas as latitudes geográficas". As 5º Jornadas Católicas e Vida pública foram realizadas entre 17 e 19 de fevereiro com tema geral "Liberdade religiosa e vida pública".
O papa pede que nós padres, deixemos o carreirismo
''Chega de carreirismo'
"É a falta de humildade que destrói a unidade" da Igreja. "A soberba é a raiz de todos os pecados". As afirmações são de Bento XVI, bispo de Roma falando de improviso aos párocos da sua diocese.
Vaticano - Mais de 300 o ouviram nessa quinta-feira, 23 de fevereiro, na Aula Nervi, no tradicional encontro do início da Quaresma com os padres romanos.
Neste ano, em vez da troca de perguntas e respostas, o papa preferiu realizar uma lectio divina. Por uma hora, falando de improviso, ele lhes explicou as insídias das quais é preciso se resguardar. Assim como aos futuros 22 cardeais durante o último Consistório, ele indicou as lógicas mundanas, a busca do poder e do sucesso.
Só a humildade, conjugada com o realismo, proferiu o pontífice, que "nos torna verdadeiramente livres". Diante dos "corvos", do vazamento de documentos reservados dos Sagrados Palácios, evidente extensão pública de um confronto interno à Cúria Romana, o papa convida a olhar para a fé, para serviço e para amor à Igreja e aos irmãos.
Nessa quinta-feira, ele denunciou o carreirismo presente na Igreja. Convidou a fugir da "vaidade" que – afirmou, falando em primeira pessoa –, "no fim, é contra mim e não me faz feliz". "Devo saber aceitar – continuou – a minha pequena posição na Igreja". É essa humildade – acrescentou – que "leva a não querer aparecer, mas sim a fazer aquilo que Deus pensou para mim e que, para mim, faz parte do realismo cristão".
A humildade é central. "Os cristãos – observou – estão divididos porque falta a humildade". "A soberba – enfatizou – é arrogância. É a raiz de todos os pecados, a busca do poder, aparecer aos olhos dos outros, não se preocupar em agradar a si mesmo e a Deus. Ser cristão significa superar essa tentação".
Durante a audiência geral da quarta-feira e depois no rito das Cinzas celebrado à tarde na Basílica de Santa Sabina, o papa advertira contra a tentação do poder e do materialismo. Antes ainda, havia indicado o perigo representado pelo poder da mídia e das finanças. Na sua lectio, não faltou uma passagem crítica contra os "católicos adultos", contra uma "fé emancipada do magistério".
Mas, para Ratzinger, o resultado "é a dependência das ondas do mundo, da ditadura dos meios de comunicação, da opinião comum, ou seja, do modo que todos pensam e querem". É o neoconformismo. "Libertar-se dessa ditadura – disse – é libertar-se realmente".
O grande problema da Igreja, concluiu o Papa Bento XVI, é o da "falta de conhecimento da fé", do "analfabetismo religioso". Ele admitiu que, na Igreja, hoje, "nem tudo é fé e amor" e que "se destrói a esperança que torna visível o Rosto de Deus". Ele convidou os párocos romanos a viver a esperança. "Ela – assegurou – nos garante que os poderes não são diferentes, e, no fim, o líder não permanece, não permanece a sujeira do mal, do pecado. Permanece apenas a Luz".
Jornal L'Unità, 24-02-2012. IHU-Unisinos
"É a falta de humildade que destrói a unidade" da Igreja. "A soberba é a raiz de todos os pecados". As afirmações são de Bento XVI, bispo de Roma falando de improviso aos párocos da sua diocese.
Vaticano - Mais de 300 o ouviram nessa quinta-feira, 23 de fevereiro, na Aula Nervi, no tradicional encontro do início da Quaresma com os padres romanos.
Neste ano, em vez da troca de perguntas e respostas, o papa preferiu realizar uma lectio divina. Por uma hora, falando de improviso, ele lhes explicou as insídias das quais é preciso se resguardar. Assim como aos futuros 22 cardeais durante o último Consistório, ele indicou as lógicas mundanas, a busca do poder e do sucesso.
Só a humildade, conjugada com o realismo, proferiu o pontífice, que "nos torna verdadeiramente livres". Diante dos "corvos", do vazamento de documentos reservados dos Sagrados Palácios, evidente extensão pública de um confronto interno à Cúria Romana, o papa convida a olhar para a fé, para serviço e para amor à Igreja e aos irmãos.
Nessa quinta-feira, ele denunciou o carreirismo presente na Igreja. Convidou a fugir da "vaidade" que – afirmou, falando em primeira pessoa –, "no fim, é contra mim e não me faz feliz". "Devo saber aceitar – continuou – a minha pequena posição na Igreja". É essa humildade – acrescentou – que "leva a não querer aparecer, mas sim a fazer aquilo que Deus pensou para mim e que, para mim, faz parte do realismo cristão".
A humildade é central. "Os cristãos – observou – estão divididos porque falta a humildade". "A soberba – enfatizou – é arrogância. É a raiz de todos os pecados, a busca do poder, aparecer aos olhos dos outros, não se preocupar em agradar a si mesmo e a Deus. Ser cristão significa superar essa tentação".
Durante a audiência geral da quarta-feira e depois no rito das Cinzas celebrado à tarde na Basílica de Santa Sabina, o papa advertira contra a tentação do poder e do materialismo. Antes ainda, havia indicado o perigo representado pelo poder da mídia e das finanças. Na sua lectio, não faltou uma passagem crítica contra os "católicos adultos", contra uma "fé emancipada do magistério".
Mas, para Ratzinger, o resultado "é a dependência das ondas do mundo, da ditadura dos meios de comunicação, da opinião comum, ou seja, do modo que todos pensam e querem". É o neoconformismo. "Libertar-se dessa ditadura – disse – é libertar-se realmente".
O grande problema da Igreja, concluiu o Papa Bento XVI, é o da "falta de conhecimento da fé", do "analfabetismo religioso". Ele admitiu que, na Igreja, hoje, "nem tudo é fé e amor" e que "se destrói a esperança que torna visível o Rosto de Deus". Ele convidou os párocos romanos a viver a esperança. "Ela – assegurou – nos garante que os poderes não são diferentes, e, no fim, o líder não permanece, não permanece a sujeira do mal, do pecado. Permanece apenas a Luz".
Jornal L'Unità, 24-02-2012. IHU-Unisinos
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Entrevista excelente
A Igreja em cisma? Entrevista
Confira a entrevista com Matthew Fox. Teólogo progressista, foi forçado a sair da Ordem Dominicana em 1988, por determinação de Ratzinger, então presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Autor de mais de 23 livros, Fox continua ensinando a explorar as grandes questões espirituais de hoje.
"A Guerra do Papa" - Livro de Fox(Foto: )
Quando o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa Bento XVI em 2005, poucos católicos estavam conscientes do papel central que ele (Ratzinger) desempenhou durante décadas para reverter as reformas do Concílio Vaticano II – para restaurar a Igreja Católica ao seu status como uma monarquia autoritária e um sistema impermeável à mudança a partir de baixo. Poucos autores contaram essa história tão bem quanto Matthew Fox em seu novo livro The Pope´s War [A Guerra do Papa] (foto).
Você concorda com o teólogo suíço Hans Küng que afirma que os papas João Paulo II e Bento XVI, ao se oporem aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, criaram um cisma na Igreja Católica?
Sim, absolutamente. Um concílio pode se impor sobre um papa. Um papa não pode se impor a um concílio. Essa é a boa teologia. O que está claro é que esses dois últimos papas romperam com todas as principais posições que o Concílio autorizou, inclusive o poder dos episcopados nacionais de escolherem seus próprios bispos, o papel dos leigos, o ecumenismo, a renovação da liturgia e o movimento rumo à justiça social. O Vaticano está em cisma. Os católicos fiéis aos princípios do Concílio não estão em cisma.
Você compara a hierarquia da Igreja de hoje e o Vaticano a um "edifício em chamas". Você exorta as pessoas a salvar apenas o essencial. O que seria?
O maior tesouro da Igreja são pessoas boas: Pe. Bede Griffiths, Dorothy Day, Mestre Eckhart, Julian de Norwich e assim por diante. Nós não precisamos viajar com as basílicas sobre as nossas costas. Precisamos apenas de mochilas. Os místicos e os profetas, a forma como viveram suas práticas e teologias, tudo isso realmente vale a pena manter. Precisamos preservar os ensinamentos sobre a sacramentalidade do universo, a tradição da sabedoria da qual Jesus vem. E, é claro, a tradição do feminino divino. Ela ainda está presente no catolicismo, porque ele é pré-moderno. A Igreja não jogou fora a deusa – mas adotou-a com o princípio mariano.
Você apresenta uma forte questão em The Pope´s War sobre a corrupção na Igreja.
Realmente, há um banquinho de três pernas na corrupção da Igreja: o primeiro é o abuso sexual e o acobertamento. O segundo é a corrupção financeira, e o terceiro é o "teológico-ideológico". Tudo isso está interligado. É ideológico, porque tudo tem a ver com dualismos como o secular versus os cristãos. É daí que vem a fixação no controle de natalidade, na homofobia e no celibato. Tudo tem a ver com o sexo. Isso também alimenta o fundamentalismo protestante. As duas ideologias estão intimamente ligadas.
Você não acredita que o Vaticano seja capaz de reforma?
Obviamente, ele não pode ser reformado. Eu olho para isso teologicamente. Eu acredito que o Espírito Santo está por trás do movimento para matar o Vaticano como o conhecemos – para matar a estrutura da Igreja Católica, para enterrá-la, para que possamos começar de novo. Trata-se de apertar o botão de restart [reinício]. Basta olhar para as seitas religiosas de direita favorecidas pelos dois últimos papas: Opus Dei, Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo. Não, o Vaticano não é reformável. É um clube masculino, um clube de valentões.
Que papel tem o sexismo na Igreja?
O sexismo está entrincheirado e institucionalizado na Igreja. Sabemos que a liderança feminina na Igreja primitiva estava por todo o lugar. Até São Paulo, que não é um homem iluminado, é explícito sobre o papel das mulheres na Igreja primitiva. E, é claro, o papel de Maria Madalena foi redescoberto. Ela pertence à ala da Igreja que assumiu a cura. Maria Madalena é a mãe da tradição sacramental da Igreja. No entanto, ela foi descrita como uma prostituta.
Como o Vaticano se relaciona com a política dos EUA?
Bem, eu acredito que a reeleição de George W. Bush em 2004 se deveu, em grande parte, às pressões do cardeal Ratzinger e do Papa João Paulo II. Em junho, Bush foi ao Vaticano e disse: "Ei, eu sou contra os gays e contra o aborto, e mereço mais do apoio dos bispos católicos norte-americanos". Uma semana depois, Ratzinger instruiu os bispos de que nenhum político católico (nomeadamente Kerry) que não fosse explicitamente contra o aborto e os gays deveria ser apoiado. Um estudo posterior mostrou que isso influenciou fortemente o voto pró-Bush em Ohio, Iowa e Novo México. No entanto, ninguém denunciou essa intervenção de uma potência estrangeira. É chocante. Mais uma vez, trata-se de negação.
Você disse em que, nos níveis mais altos, o nosso governo passou a estar sob a influência do Opus Dei, uma seita católica de extrema-direita que exige a obediência absoluta de seus membros.
Sim, é amplamente sabido que os juízes da Suprema Corte Antonin Scalia, Samuel Alito e Clarence Thomas pertencem ao Opus Dei – e que o juiz Thomas Roberts também pode ser um membro. Outro membro do Opus Dei, o ex-diretor da CIA William Casey, deu milhões de dólares ao Vaticano e aos ultraconservadores Legionários de Cristo. Além disso, Daniel Ellsberg recentemente me contou que alguns dos comandantes superiores das nossas Forças Armadas também são do Opus Dei. E o que podemos dizer de uma safra completamente nova de políticos católicos de direita como Newt Gingrich e Rick Santorum?
É verdade que o Vaticano geralmente confia em fontes questionáveis ao emitir uma condenação contra teólogos e pensadores católicos?
Ah, sim. No meu caso, a Congregação da Doutrina da Fé ignorou as conclusões de três teólogos dominicanos que examinaram o meu trabalho e não encontraram nada de errado com ele. Eles deram mais crédito a fofocas de fontes não confiáveis. Eles ouviram a todos esses excêntricos de extrema direita que enviam e-mails e faxes. Eles nunca examinaram as suas credenciais, e a maioria deles não tem credenciais.
Estes dois últimos papas minaram a possibilidade de escolher lideranças progressistas para a Igreja no futuro?
Sim, minaram. É como arranjar tendenciosamente a Suprema Corte. Mas lembre-se, eles estão em cisma. E não se esqueça que todos esses cardeais, arcebispos e padres também estão em cisma. Isso significa que qualquer católico que esteja tentando viver os princípios do Vaticano II e do Evangelho não está em cisma.
Por que mais católicos não se queixam sobre isso?
Bem, é isso que a mídia, o que a televisão faz. Ela entorpece as pessoas. Mas também tem a ver com a negação. Na nova edição de bolso do meu livro, eu cito o Mestre Eckhart, que disse: "Deus é a negação da negação". Para mim, essa é uma frase muito poderosa. Enquanto não pudermos superar a negação, o Espírito não pode fluir novamente. Os católicos precisam quase se esconder atrás dos bancos, atrás das ordens religiosas.
Você acha que os grupos católicos de reforma como o Call to Action, Future Church e outros estão crescendo, ou as pessoas estão simplesmente abandonando a Igreja?
Recentemente, eu participei de uma convenção nacional em Detroit [The American Catholic Council]. Foi triste ver que não havia lá praticamente ninguém com menos de 50 anos. Jovens com bebês recém-nascidos vieram me perguntar como eles deveriam educar seus filhos, já que não querem ter mais nada a ver com a Igreja Católica. O futuro da Igreja está com os jovens, e os jovens não estão aparecendo na Igreja, talvez com a exceção dos hispânicos.
Qual a sua opinião sobre os ordinariatos vaticanos recém-criados para aceitar clérigos anglicanos casados como padres católicos válidos?
Eles acolhem esses padres episcopais contanto que eles possam provar que são homofóbicos e sexistas. Não se esqueça que o papa também acolheu de volta um bispo cismático que provou ser um fascista e um negador do Holocausto. Isso realmente não tem fim. Nada disso tem a ver com Jesus.
Um dos principais objetivos do Papa Bento XVI era restaurar a Cristandade, ou a influência da Igreja na Europa ocidental. A crise dos abusos sexuais em todo o mundo inviabilizou esse projeto?
Com certeza. Mesmo na Polônia. Uma pesquisa realizada lá mostrou que apenas 3% da população da Polônia confia na hierarquia da Igreja Católica Romana. O ex-secretário papal, o cardeal Stanislaw Dziwisz, primaz de Varsóvia, está sendo acusado agora por ter se intrometido nos assuntos do governo polonês.
Por que as Igrejas tradicionais perdem tantos membros, enquanto as megaigrejas continuam crescendo?
Bem, esse é um sinal de que a coisa toda precisa ser sacudida. O problema católico é a corrupção no topo, e o problema protestante é a apatia. Isso permite que os fundamentalistas se apossem do nome de Jesus. Muitas pessoas estão pegando no sono nos bancos. Ao contrário, elas precisam dançar. Usamos vídeos, danças e diferentes formas de expressão em nossas "Missas Cósmicas".
Como o paroquiano médio se relaciona com essas missas, com telas de vídeo, danças e sessões de rap? Isso não vai de um extremo ao outro?
Trazer o rave, o rap e novas formas de linguagem para a celebração é muito eficaz. É uma forma de tornar a celebração relevante para os jovens e também para despertar os mais velhos para pensar e meditar. Isso realmente funciona. A Eucaristia é bonita, mas precisa ser posta em um novo cenário. Você não precisa que as orações sejam lidas para você – elas precisam vir do seu coração. E é isso que acontece quando você dança. Isso também é pré-moderno – remonta ao culto indígena que envolve o corpo. Sou favorável a uma grande variedade de celebrações – mas a Missa Cósmica é algo que atravessa todas as linhas de idades e culturas.
Em maio próximo, você estará pregando um retiro em Boston chamado "Ocupar o Cristianismo".
Sim. É sobre como apertar o botão de restart no cristianismo. Estaremos discutindo a dimensão espiritual e estratégica para renovar o cristianismo, tanto com católicos, quanto com protestantes. As Igrejas protestantes precisam de um reinício também, por razões diferentes. Ambas as tradições precisam voltar aos ensinamentos espirituais básicos de Jesus para a renovação.
Catholica, 10-02-2012. Tradução IHU-Unisinos.
Confira a entrevista com Matthew Fox. Teólogo progressista, foi forçado a sair da Ordem Dominicana em 1988, por determinação de Ratzinger, então presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Autor de mais de 23 livros, Fox continua ensinando a explorar as grandes questões espirituais de hoje.
"A Guerra do Papa" - Livro de Fox(Foto: )
Quando o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa Bento XVI em 2005, poucos católicos estavam conscientes do papel central que ele (Ratzinger) desempenhou durante décadas para reverter as reformas do Concílio Vaticano II – para restaurar a Igreja Católica ao seu status como uma monarquia autoritária e um sistema impermeável à mudança a partir de baixo. Poucos autores contaram essa história tão bem quanto Matthew Fox em seu novo livro The Pope´s War [A Guerra do Papa] (foto).
Você concorda com o teólogo suíço Hans Küng que afirma que os papas João Paulo II e Bento XVI, ao se oporem aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, criaram um cisma na Igreja Católica?
Sim, absolutamente. Um concílio pode se impor sobre um papa. Um papa não pode se impor a um concílio. Essa é a boa teologia. O que está claro é que esses dois últimos papas romperam com todas as principais posições que o Concílio autorizou, inclusive o poder dos episcopados nacionais de escolherem seus próprios bispos, o papel dos leigos, o ecumenismo, a renovação da liturgia e o movimento rumo à justiça social. O Vaticano está em cisma. Os católicos fiéis aos princípios do Concílio não estão em cisma.
Você compara a hierarquia da Igreja de hoje e o Vaticano a um "edifício em chamas". Você exorta as pessoas a salvar apenas o essencial. O que seria?
O maior tesouro da Igreja são pessoas boas: Pe. Bede Griffiths, Dorothy Day, Mestre Eckhart, Julian de Norwich e assim por diante. Nós não precisamos viajar com as basílicas sobre as nossas costas. Precisamos apenas de mochilas. Os místicos e os profetas, a forma como viveram suas práticas e teologias, tudo isso realmente vale a pena manter. Precisamos preservar os ensinamentos sobre a sacramentalidade do universo, a tradição da sabedoria da qual Jesus vem. E, é claro, a tradição do feminino divino. Ela ainda está presente no catolicismo, porque ele é pré-moderno. A Igreja não jogou fora a deusa – mas adotou-a com o princípio mariano.
Você apresenta uma forte questão em The Pope´s War sobre a corrupção na Igreja.
Realmente, há um banquinho de três pernas na corrupção da Igreja: o primeiro é o abuso sexual e o acobertamento. O segundo é a corrupção financeira, e o terceiro é o "teológico-ideológico". Tudo isso está interligado. É ideológico, porque tudo tem a ver com dualismos como o secular versus os cristãos. É daí que vem a fixação no controle de natalidade, na homofobia e no celibato. Tudo tem a ver com o sexo. Isso também alimenta o fundamentalismo protestante. As duas ideologias estão intimamente ligadas.
Você não acredita que o Vaticano seja capaz de reforma?
Obviamente, ele não pode ser reformado. Eu olho para isso teologicamente. Eu acredito que o Espírito Santo está por trás do movimento para matar o Vaticano como o conhecemos – para matar a estrutura da Igreja Católica, para enterrá-la, para que possamos começar de novo. Trata-se de apertar o botão de restart [reinício]. Basta olhar para as seitas religiosas de direita favorecidas pelos dois últimos papas: Opus Dei, Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo. Não, o Vaticano não é reformável. É um clube masculino, um clube de valentões.
Que papel tem o sexismo na Igreja?
O sexismo está entrincheirado e institucionalizado na Igreja. Sabemos que a liderança feminina na Igreja primitiva estava por todo o lugar. Até São Paulo, que não é um homem iluminado, é explícito sobre o papel das mulheres na Igreja primitiva. E, é claro, o papel de Maria Madalena foi redescoberto. Ela pertence à ala da Igreja que assumiu a cura. Maria Madalena é a mãe da tradição sacramental da Igreja. No entanto, ela foi descrita como uma prostituta.
Como o Vaticano se relaciona com a política dos EUA?
Bem, eu acredito que a reeleição de George W. Bush em 2004 se deveu, em grande parte, às pressões do cardeal Ratzinger e do Papa João Paulo II. Em junho, Bush foi ao Vaticano e disse: "Ei, eu sou contra os gays e contra o aborto, e mereço mais do apoio dos bispos católicos norte-americanos". Uma semana depois, Ratzinger instruiu os bispos de que nenhum político católico (nomeadamente Kerry) que não fosse explicitamente contra o aborto e os gays deveria ser apoiado. Um estudo posterior mostrou que isso influenciou fortemente o voto pró-Bush em Ohio, Iowa e Novo México. No entanto, ninguém denunciou essa intervenção de uma potência estrangeira. É chocante. Mais uma vez, trata-se de negação.
Você disse em que, nos níveis mais altos, o nosso governo passou a estar sob a influência do Opus Dei, uma seita católica de extrema-direita que exige a obediência absoluta de seus membros.
Sim, é amplamente sabido que os juízes da Suprema Corte Antonin Scalia, Samuel Alito e Clarence Thomas pertencem ao Opus Dei – e que o juiz Thomas Roberts também pode ser um membro. Outro membro do Opus Dei, o ex-diretor da CIA William Casey, deu milhões de dólares ao Vaticano e aos ultraconservadores Legionários de Cristo. Além disso, Daniel Ellsberg recentemente me contou que alguns dos comandantes superiores das nossas Forças Armadas também são do Opus Dei. E o que podemos dizer de uma safra completamente nova de políticos católicos de direita como Newt Gingrich e Rick Santorum?
É verdade que o Vaticano geralmente confia em fontes questionáveis ao emitir uma condenação contra teólogos e pensadores católicos?
Ah, sim. No meu caso, a Congregação da Doutrina da Fé ignorou as conclusões de três teólogos dominicanos que examinaram o meu trabalho e não encontraram nada de errado com ele. Eles deram mais crédito a fofocas de fontes não confiáveis. Eles ouviram a todos esses excêntricos de extrema direita que enviam e-mails e faxes. Eles nunca examinaram as suas credenciais, e a maioria deles não tem credenciais.
Estes dois últimos papas minaram a possibilidade de escolher lideranças progressistas para a Igreja no futuro?
Sim, minaram. É como arranjar tendenciosamente a Suprema Corte. Mas lembre-se, eles estão em cisma. E não se esqueça que todos esses cardeais, arcebispos e padres também estão em cisma. Isso significa que qualquer católico que esteja tentando viver os princípios do Vaticano II e do Evangelho não está em cisma.
Por que mais católicos não se queixam sobre isso?
Bem, é isso que a mídia, o que a televisão faz. Ela entorpece as pessoas. Mas também tem a ver com a negação. Na nova edição de bolso do meu livro, eu cito o Mestre Eckhart, que disse: "Deus é a negação da negação". Para mim, essa é uma frase muito poderosa. Enquanto não pudermos superar a negação, o Espírito não pode fluir novamente. Os católicos precisam quase se esconder atrás dos bancos, atrás das ordens religiosas.
Você acha que os grupos católicos de reforma como o Call to Action, Future Church e outros estão crescendo, ou as pessoas estão simplesmente abandonando a Igreja?
Recentemente, eu participei de uma convenção nacional em Detroit [The American Catholic Council]. Foi triste ver que não havia lá praticamente ninguém com menos de 50 anos. Jovens com bebês recém-nascidos vieram me perguntar como eles deveriam educar seus filhos, já que não querem ter mais nada a ver com a Igreja Católica. O futuro da Igreja está com os jovens, e os jovens não estão aparecendo na Igreja, talvez com a exceção dos hispânicos.
Qual a sua opinião sobre os ordinariatos vaticanos recém-criados para aceitar clérigos anglicanos casados como padres católicos válidos?
Eles acolhem esses padres episcopais contanto que eles possam provar que são homofóbicos e sexistas. Não se esqueça que o papa também acolheu de volta um bispo cismático que provou ser um fascista e um negador do Holocausto. Isso realmente não tem fim. Nada disso tem a ver com Jesus.
Um dos principais objetivos do Papa Bento XVI era restaurar a Cristandade, ou a influência da Igreja na Europa ocidental. A crise dos abusos sexuais em todo o mundo inviabilizou esse projeto?
Com certeza. Mesmo na Polônia. Uma pesquisa realizada lá mostrou que apenas 3% da população da Polônia confia na hierarquia da Igreja Católica Romana. O ex-secretário papal, o cardeal Stanislaw Dziwisz, primaz de Varsóvia, está sendo acusado agora por ter se intrometido nos assuntos do governo polonês.
Por que as Igrejas tradicionais perdem tantos membros, enquanto as megaigrejas continuam crescendo?
Bem, esse é um sinal de que a coisa toda precisa ser sacudida. O problema católico é a corrupção no topo, e o problema protestante é a apatia. Isso permite que os fundamentalistas se apossem do nome de Jesus. Muitas pessoas estão pegando no sono nos bancos. Ao contrário, elas precisam dançar. Usamos vídeos, danças e diferentes formas de expressão em nossas "Missas Cósmicas".
Como o paroquiano médio se relaciona com essas missas, com telas de vídeo, danças e sessões de rap? Isso não vai de um extremo ao outro?
Trazer o rave, o rap e novas formas de linguagem para a celebração é muito eficaz. É uma forma de tornar a celebração relevante para os jovens e também para despertar os mais velhos para pensar e meditar. Isso realmente funciona. A Eucaristia é bonita, mas precisa ser posta em um novo cenário. Você não precisa que as orações sejam lidas para você – elas precisam vir do seu coração. E é isso que acontece quando você dança. Isso também é pré-moderno – remonta ao culto indígena que envolve o corpo. Sou favorável a uma grande variedade de celebrações – mas a Missa Cósmica é algo que atravessa todas as linhas de idades e culturas.
Em maio próximo, você estará pregando um retiro em Boston chamado "Ocupar o Cristianismo".
Sim. É sobre como apertar o botão de restart no cristianismo. Estaremos discutindo a dimensão espiritual e estratégica para renovar o cristianismo, tanto com católicos, quanto com protestantes. As Igrejas protestantes precisam de um reinício também, por razões diferentes. Ambas as tradições precisam voltar aos ensinamentos espirituais básicos de Jesus para a renovação.
Catholica, 10-02-2012. Tradução IHU-Unisinos.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
santidade.....
Santos de carne e osso O verdadeiro santo foge das condecorações e elogios
Há muitos santos modernos agindo em nome de Deus e vivendo uma caridade séria, não fingida, sem caricatura e sem teatralidade. Não parecem santos, mas o são. Guardaram-se para seu Criador, aceitam Jesus, vivem para sua família, para o grande amor de suas vidas, são fiéis à verdade, aos amigos, à palavra dada, e ao seu batismo.
Não têm nem cara nem trejeitos de santos, mas estabeleceram um projeto de vida e o constroem tijolo por tijolo, ato por ato, coerência por coerência. Muitas pessoas nem percebem que eles são santos, porque são gente de carne e osso como nós. Mas uma análise do que fazem pelos outros, da sua humildade, da sua fé e da sua serenidade aponta para mais um dos santos que Jesus formou.
Diferente é o santo fingido. Ele decidiu que gostaria de ser visto como santo pela projeção social, como no tempo de Jeremias, 650 anos antes de Jesus e no tempo do próprio Jesus, quando posar de santo e de profeta dava lucro e angariava louvores e primeiros lugares. Então muita gente fingia jejuar e orar ostentado uma santidade que não tinha. E havia os que garantiam que Deus falava com eles e que eles sabiam levar a Deus [aos demais]. Ganhavam seu sustento com sua cara de santos. Isaías, Jeremias, Jesus e os apóstolos alertaram sobre eles.
Mas como muita gente adora uma novela e não dispensa um teatro, sempre haverá quem despreze o santo sereno que não dá espetáculo e corra atrás do que grita, chora, esperneia, garante visões, revelações quentíssimas, curas e milagres em local dia e hora marcados. Trocam a verdade, a simplicidade e a honestidade do santo que não faz marketing pelo "pseudossanto" que dá espetáculo, cura dramaticamente, entrevista o demônio ao microfone e transforma a fé em espetáculo.
Até que ponto isso é válido? Que santidade é essa em que não só a mão esquerda sabe o que faz a direita como também câmeras e microfones veiculam aquilo para todo o mundo? O mesmo Jesus que disse para anunciar a verdade por sobre os telhados e que nossa luz brilhasse, teve o cuidado de mandar que orássemos de portas trancadas e que não fizéssemos alarde da nossa caridade e dos nossos carismas. Ele mesmo pedia que os beneficiados por Ele não espalhassem a notícia.
Jesus, que é santo de verdade e nunca fingia poder ou santidade, e que nos pediu que seguíssemos Seu exemplo a ponto de, elogiados e incensados, dizermos que não fizemos mais do que nossa obrigação e que não buscássemos os primeiros lugares, este mesmo Jesus concordaria com o que se vê na mídia religiosa de hoje?
Uma coisa é ser santo sem caricatura, sem cabeça torta, sem chorar orando e dando murros no chão, sem dramaticidade televisiva, com atos de justiça que só Deus vê porque aquele cristão não divulga o bem que faz. Outra coisa é buscar os holofotes e desabridamente, sem nenhum escrúpulo, chamar a atenção para si mesmo, para sua obra e garantir que Deus quer que ele ou ela apareçam para Sua maior honra e glória. Pior ainda: ganhar dinheiro grosso em cima dessa exibição de santidade. Cristo condenou e criticou os fariseus que assim agiam.
Santo que é santo não finge que o é. É discreto. Faz o que deve fazer e foge do incenso, das condecorações e dos elogios. Há santos de verdade ao nosso redor e há caricaturas de santos vendendo e ostentando uma fé que aponta mais para si mesmos do que para Jesus, cujo nome usam com estardalhaço.
Você que crê na Bíblia terá que escolher a quem seguir. Aos que dão a entender que são os novos santos ou os que nada dizem; simplesmente vivem a Palavra e a praticam.
Se você é dos que dizem que ainda não estão convertidos, mas que estão se convertendo, merecerá mais crédito do que os que garantem que Jesus os salvou e que eles sabem o caminho. Em termos de fé quem segue procurando está mais perto do que aquele que diz ter achado e agora aponta para si mesmo como exemplo do que Deus faz por um pecador. Eu prefiro o santo que aponta para os outros convertidos e santos e não fala nada sobre si mesmo, exceto que precisa de preces para ser mais de Cristo.
Desconfiemos de santos que gostam de medalhas, condecorações, incensos e elogios. Apostemos em que só os aceita por obediência. Pe. Zezinho, scj
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