sábado, 25 de fevereiro de 2012

O papa pede que nós padres, deixemos o carreirismo

''Chega de carreirismo'


"É a falta de humildade que destrói a unidade" da Igreja. "A soberba é a raiz de todos os pecados". As afirmações são de Bento XVI, bispo de Roma falando de improviso aos párocos da sua diocese.

Vaticano - Mais de 300 o ouviram nessa quinta-feira, 23 de fevereiro, na Aula Nervi, no tradicional encontro do início da Quaresma com os padres romanos.

Neste ano, em vez da troca de perguntas e respostas, o papa preferiu realizar uma lectio divina. Por uma hora, falando de improviso, ele lhes explicou as insídias das quais é preciso se resguardar. Assim como aos futuros 22 cardeais durante o último Consistório, ele indicou as lógicas mundanas, a busca do poder e do sucesso.

Só a humildade, conjugada com o realismo, proferiu o pontífice, que "nos torna verdadeiramente livres". Diante dos "corvos", do vazamento de documentos reservados dos Sagrados Palácios, evidente extensão pública de um confronto interno à Cúria Romana, o papa convida a olhar para a fé, para serviço e para amor à Igreja e aos irmãos.

Nessa quinta-feira, ele denunciou o carreirismo presente na Igreja. Convidou a fugir da "vaidade" que – afirmou, falando em primeira pessoa –, "no fim, é contra mim e não me faz feliz". "Devo saber aceitar – continuou – a minha pequena posição na Igreja". É essa humildade – acrescentou – que "leva a não querer aparecer, mas sim a fazer aquilo que Deus pensou para mim e que, para mim, faz parte do realismo cristão".

A humildade é central. "Os cristãos – observou – estão divididos porque falta a humildade". "A soberba – enfatizou – é arrogância. É a raiz de todos os pecados, a busca do poder, aparecer aos olhos dos outros, não se preocupar em agradar a si mesmo e a Deus. Ser cristão significa superar essa tentação".

Durante a audiência geral da quarta-feira e depois no rito das Cinzas celebrado à tarde na Basílica de Santa Sabina, o papa advertira contra a tentação do poder e do materialismo. Antes ainda, havia indicado o perigo representado pelo poder da mídia e das finanças. Na sua lectio, não faltou uma passagem crítica contra os "católicos adultos", contra uma "fé emancipada do magistério".

Mas, para Ratzinger, o resultado "é a dependência das ondas do mundo, da ditadura dos meios de comunicação, da opinião comum, ou seja, do modo que todos pensam e querem". É o neoconformismo. "Libertar-se dessa ditadura – disse – é libertar-se realmente".

O grande problema da Igreja, concluiu o Papa Bento XVI, é o da "falta de conhecimento da fé", do "analfabetismo religioso". Ele admitiu que, na Igreja, hoje, "nem tudo é fé e amor" e que "se destrói a esperança que torna visível o Rosto de Deus". Ele convidou os párocos romanos a viver a esperança. "Ela – assegurou – nos garante que os poderes não são diferentes, e, no fim, o líder não permanece, não permanece a sujeira do mal, do pecado. Permanece apenas a Luz".

Jornal L'Unità, 24-02-2012. IHU-Unisinos

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Entrevista excelente

A Igreja em cisma? Entrevista


Confira a entrevista com Matthew Fox. Teólogo progressista, foi forçado a sair da Ordem Dominicana em 1988, por determinação de Ratzinger, então presidente da Congregação para a Doutrina da Fé. Autor de mais de 23 livros, Fox continua ensinando a explorar as grandes questões espirituais de hoje.

"A Guerra do Papa" - Livro de Fox(Foto: )

Quando o cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa Bento XVI em 2005, poucos católicos estavam conscientes do papel central que ele (Ratzinger) desempenhou durante décadas para reverter as reformas do Concílio Vaticano II – para restaurar a Igreja Católica ao seu status como uma monarquia autoritária e um sistema impermeável à mudança a partir de baixo. Poucos autores contaram essa história tão bem quanto Matthew Fox em seu novo livro The Pope´s War [A Guerra do Papa] (foto).

Você concorda com o teólogo suíço Hans Küng que afirma que os papas João Paulo II e Bento XVI, ao se oporem aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, criaram um cisma na Igreja Católica?

Sim, absolutamente. Um concílio pode se impor sobre um papa. Um papa não pode se impor a um concílio. Essa é a boa teologia. O que está claro é que esses dois últimos papas romperam com todas as principais posições que o Concílio autorizou, inclusive o poder dos episcopados nacionais de escolherem seus próprios bispos, o papel dos leigos, o ecumenismo, a renovação da liturgia e o movimento rumo à justiça social. O Vaticano está em cisma. Os católicos fiéis aos princípios do Concílio não estão em cisma.

Você compara a hierarquia da Igreja de hoje e o Vaticano a um "edifício em chamas". Você exorta as pessoas a salvar apenas o essencial. O que seria?

O maior tesouro da Igreja são pessoas boas: Pe. Bede Griffiths, Dorothy Day, Mestre Eckhart, Julian de Norwich e assim por diante. Nós não precisamos viajar com as basílicas sobre as nossas costas. Precisamos apenas de mochilas. Os místicos e os profetas, a forma como viveram suas práticas e teologias, tudo isso realmente vale a pena manter. Precisamos preservar os ensinamentos sobre a sacramentalidade do universo, a tradição da sabedoria da qual Jesus vem. E, é claro, a tradição do feminino divino. Ela ainda está presente no catolicismo, porque ele é pré-moderno. A Igreja não jogou fora a deusa – mas adotou-a com o princípio mariano.

Você apresenta uma forte questão em The Pope´s War sobre a corrupção na Igreja.

Realmente, há um banquinho de três pernas na corrupção da Igreja: o primeiro é o abuso sexual e o acobertamento. O segundo é a corrupção financeira, e o terceiro é o "teológico-ideológico". Tudo isso está interligado. É ideológico, porque tudo tem a ver com dualismos como o secular versus os cristãos. É daí que vem a fixação no controle de natalidade, na homofobia e no celibato. Tudo tem a ver com o sexo. Isso também alimenta o fundamentalismo protestante. As duas ideologias estão intimamente ligadas.

Você não acredita que o Vaticano seja capaz de reforma?

Obviamente, ele não pode ser reformado. Eu olho para isso teologicamente. Eu acredito que o Espírito Santo está por trás do movimento para matar o Vaticano como o conhecemos – para matar a estrutura da Igreja Católica, para enterrá-la, para que possamos começar de novo. Trata-se de apertar o botão de restart [reinício]. Basta olhar para as seitas religiosas de direita favorecidas pelos dois últimos papas: Opus Dei, Comunhão e Libertação e os Legionários de Cristo. Não, o Vaticano não é reformável. É um clube masculino, um clube de valentões.

Que papel tem o sexismo na Igreja?

O sexismo está entrincheirado e institucionalizado na Igreja. Sabemos que a liderança feminina na Igreja primitiva estava por todo o lugar. Até São Paulo, que não é um homem iluminado, é explícito sobre o papel das mulheres na Igreja primitiva. E, é claro, o papel de Maria Madalena foi redescoberto. Ela pertence à ala da Igreja que assumiu a cura. Maria Madalena é a mãe da tradição sacramental da Igreja. No entanto, ela foi descrita como uma prostituta.

Como o Vaticano se relaciona com a política dos EUA?

Bem, eu acredito que a reeleição de George W. Bush em 2004 se deveu, em grande parte, às pressões do cardeal Ratzinger e do Papa João Paulo II. Em junho, Bush foi ao Vaticano e disse: "Ei, eu sou contra os gays e contra o aborto, e mereço mais do apoio dos bispos católicos norte-americanos". Uma semana depois, Ratzinger instruiu os bispos de que nenhum político católico (nomeadamente Kerry) que não fosse explicitamente contra o aborto e os gays deveria ser apoiado. Um estudo posterior mostrou que isso influenciou fortemente o voto pró-Bush em Ohio, Iowa e Novo México. No entanto, ninguém denunciou essa intervenção de uma potência estrangeira. É chocante. Mais uma vez, trata-se de negação.

Você disse em que, nos níveis mais altos, o nosso governo passou a estar sob a influência do Opus Dei, uma seita católica de extrema-direita que exige a obediência absoluta de seus membros.

Sim, é amplamente sabido que os juízes da Suprema Corte Antonin Scalia, Samuel Alito e Clarence Thomas pertencem ao Opus Dei – e que o juiz Thomas Roberts também pode ser um membro. Outro membro do Opus Dei, o ex-diretor da CIA William Casey, deu milhões de dólares ao Vaticano e aos ultraconservadores Legionários de Cristo. Além disso, Daniel Ellsberg recentemente me contou que alguns dos comandantes superiores das nossas Forças Armadas também são do Opus Dei. E o que podemos dizer de uma safra completamente nova de políticos católicos de direita como Newt Gingrich e Rick Santorum?

É verdade que o Vaticano geralmente confia em fontes questionáveis ao emitir uma condenação contra teólogos e pensadores católicos?

Ah, sim. No meu caso, a Congregação da Doutrina da Fé ignorou as conclusões de três teólogos dominicanos que examinaram o meu trabalho e não encontraram nada de errado com ele. Eles deram mais crédito a fofocas de fontes não confiáveis. Eles ouviram a todos esses excêntricos de extrema direita que enviam e-mails e faxes. Eles nunca examinaram as suas credenciais, e a maioria deles não tem credenciais.

Estes dois últimos papas minaram a possibilidade de escolher lideranças progressistas para a Igreja no futuro?

Sim, minaram. É como arranjar tendenciosamente a Suprema Corte. Mas lembre-se, eles estão em cisma. E não se esqueça que todos esses cardeais, arcebispos e padres também estão em cisma. Isso significa que qualquer católico que esteja tentando viver os princípios do Vaticano II e do Evangelho não está em cisma.

Por que mais católicos não se queixam sobre isso?

Bem, é isso que a mídia, o que a televisão faz. Ela entorpece as pessoas. Mas também tem a ver com a negação. Na nova edição de bolso do meu livro, eu cito o Mestre Eckhart, que disse: "Deus é a negação da negação". Para mim, essa é uma frase muito poderosa. Enquanto não pudermos superar a negação, o Espírito não pode fluir novamente. Os católicos precisam quase se esconder atrás dos bancos, atrás das ordens religiosas.

Você acha que os grupos católicos de reforma como o Call to Action, Future Church e outros estão crescendo, ou as pessoas estão simplesmente abandonando a Igreja?

Recentemente, eu participei de uma convenção nacional em Detroit [The American Catholic Council]. Foi triste ver que não havia lá praticamente ninguém com menos de 50 anos. Jovens com bebês recém-nascidos vieram me perguntar como eles deveriam educar seus filhos, já que não querem ter mais nada a ver com a Igreja Católica. O futuro da Igreja está com os jovens, e os jovens não estão aparecendo na Igreja, talvez com a exceção dos hispânicos.

Qual a sua opinião sobre os ordinariatos vaticanos recém-criados para aceitar clérigos anglicanos casados como padres católicos válidos?

Eles acolhem esses padres episcopais contanto que eles possam provar que são homofóbicos e sexistas. Não se esqueça que o papa também acolheu de volta um bispo cismático que provou ser um fascista e um negador do Holocausto. Isso realmente não tem fim. Nada disso tem a ver com Jesus.

Um dos principais objetivos do Papa Bento XVI era restaurar a Cristandade, ou a influência da Igreja na Europa ocidental. A crise dos abusos sexuais em todo o mundo inviabilizou esse projeto?

Com certeza. Mesmo na Polônia. Uma pesquisa realizada lá mostrou que apenas 3% da população da Polônia confia na hierarquia da Igreja Católica Romana. O ex-secretário papal, o cardeal Stanislaw Dziwisz, primaz de Varsóvia, está sendo acusado agora por ter se intrometido nos assuntos do governo polonês.

Por que as Igrejas tradicionais perdem tantos membros, enquanto as megaigrejas continuam crescendo?

Bem, esse é um sinal de que a coisa toda precisa ser sacudida. O problema católico é a corrupção no topo, e o problema protestante é a apatia. Isso permite que os fundamentalistas se apossem do nome de Jesus. Muitas pessoas estão pegando no sono nos bancos. Ao contrário, elas precisam dançar. Usamos vídeos, danças e diferentes formas de expressão em nossas "Missas Cósmicas".

Como o paroquiano médio se relaciona com essas missas, com telas de vídeo, danças e sessões de rap? Isso não vai de um extremo ao outro?

Trazer o rave, o rap e novas formas de linguagem para a celebração é muito eficaz. É uma forma de tornar a celebração relevante para os jovens e também para despertar os mais velhos para pensar e meditar. Isso realmente funciona. A Eucaristia é bonita, mas precisa ser posta em um novo cenário. Você não precisa que as orações sejam lidas para você – elas precisam vir do seu coração. E é isso que acontece quando você dança. Isso também é pré-moderno – remonta ao culto indígena que envolve o corpo. Sou favorável a uma grande variedade de celebrações – mas a Missa Cósmica é algo que atravessa todas as linhas de idades e culturas.

Em maio próximo, você estará pregando um retiro em Boston chamado "Ocupar o Cristianismo".

Sim. É sobre como apertar o botão de restart no cristianismo. Estaremos discutindo a dimensão espiritual e estratégica para renovar o cristianismo, tanto com católicos, quanto com protestantes. As Igrejas protestantes precisam de um reinício também, por razões diferentes. Ambas as tradições precisam voltar aos ensinamentos espirituais básicos de Jesus para a renovação.

Catholica, 10-02-2012. Tradução IHU-Unisinos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

santidade.....



Santos de carne e osso O verdadeiro santo foge das condecorações e elogios

Há muitos santos modernos agindo em nome de Deus e vivendo uma caridade séria, não fingida, sem caricatura e sem teatralidade. Não parecem santos, mas o são. Guardaram-se para seu Criador, aceitam Jesus, vivem para sua família, para o grande amor de suas vidas, são fiéis à verdade, aos amigos, à palavra dada, e ao seu batismo.

Não têm nem cara nem trejeitos de santos, mas estabeleceram um projeto de vida e o constroem tijolo por tijolo, ato por ato, coerência por coerência. Muitas pessoas nem percebem que eles são santos, porque são gente de carne e osso como nós. Mas uma análise do que fazem pelos outros, da sua humildade, da sua fé e da sua serenidade aponta para mais um dos santos que Jesus formou.

Diferente é o santo fingido. Ele decidiu que gostaria de ser visto como santo pela projeção social, como no tempo de Jeremias, 650 anos antes de Jesus e no tempo do próprio Jesus, quando posar de santo e de profeta dava lucro e angariava louvores e primeiros lugares. Então muita gente fingia jejuar e orar ostentado uma santidade que não tinha. E havia os que garantiam que Deus falava com eles e que eles sabiam levar a Deus [aos demais]. Ganhavam seu sustento com sua cara de santos. Isaías, Jeremias, Jesus e os apóstolos alertaram sobre eles.

Mas como muita gente adora uma novela e não dispensa um teatro, sempre haverá quem despreze o santo sereno que não dá espetáculo e corra atrás do que grita, chora, esperneia, garante visões, revelações quentíssimas, curas e milagres em local dia e hora marcados. Trocam a verdade, a simplicidade e a honestidade do santo que não faz marketing pelo "pseudossanto" que dá espetáculo, cura dramaticamente, entrevista o demônio ao microfone e transforma a fé em espetáculo.

Até que ponto isso é válido? Que santidade é essa em que não só a mão esquerda sabe o que faz a direita como também câmeras e microfones veiculam aquilo para todo o mundo? O mesmo Jesus que disse para anunciar a verdade por sobre os telhados e que nossa luz brilhasse, teve o cuidado de mandar que orássemos de portas trancadas e que não fizéssemos alarde da nossa caridade e dos nossos carismas. Ele mesmo pedia que os beneficiados por Ele não espalhassem a notícia.

Jesus, que é santo de verdade e nunca fingia poder ou santidade, e que nos pediu que seguíssemos Seu exemplo a ponto de, elogiados e incensados, dizermos que não fizemos mais do que nossa obrigação e que não buscássemos os primeiros lugares, este mesmo Jesus concordaria com o que se vê na mídia religiosa de hoje?

Uma coisa é ser santo sem caricatura, sem cabeça torta, sem chorar orando e dando murros no chão, sem dramaticidade televisiva, com atos de justiça que só Deus vê porque aquele cristão não divulga o bem que faz. Outra coisa é buscar os holofotes e desabridamente, sem nenhum escrúpulo, chamar a atenção para si mesmo, para sua obra e garantir que Deus quer que ele ou ela apareçam para Sua maior honra e glória. Pior ainda: ganhar dinheiro grosso em cima dessa exibição de santidade. Cristo condenou e criticou os fariseus que assim agiam.

Santo que é santo não finge que o é. É discreto. Faz o que deve fazer e foge do incenso, das condecorações e dos elogios. Há santos de verdade ao nosso redor e há caricaturas de santos vendendo e ostentando uma fé que aponta mais para si mesmos do que para Jesus, cujo nome usam com estardalhaço.

Você que crê na Bíblia terá que escolher a quem seguir. Aos que dão a entender que são os novos santos ou os que nada dizem; simplesmente vivem a Palavra e a praticam.

Se você é dos que dizem que ainda não estão convertidos, mas que estão se convertendo, merecerá mais crédito do que os que garantem que Jesus os salvou e que eles sabem o caminho. Em termos de fé quem segue procurando está mais perto do que aquele que diz ter achado e agora aponta para si mesmo como exemplo do que Deus faz por um pecador. Eu prefiro o santo que aponta para os outros convertidos e santos e não fala nada sobre si mesmo, exceto que precisa de preces para ser mais de Cristo.

Desconfiemos de santos que gostam de medalhas, condecorações, incensos e elogios. Apostemos em que só os aceita por obediência. Pe. Zezinho, scj

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Papa e os Ex- presidiários.....

Respostas de Bento XVI aos presos da Penitenciária de Rebibbia

Rádio Vaticano, em italiano
(tradução de Leonardo Meira - equipe CN Notícias)


Pergunta 1 – situação das prisões italianas

Chamo-me Rocco. Antes de tudo, gostaria de manifestar o nosso e o meu agradecimento pessoal por esta visita que nos é muito apreciada e assume, em um momento tão dramático para os cárceres italianos, um grande conteúdo de solidariedade, humanidade e conforto. Desejo perguntar a Sua Santidade se este seu gesto será compreendido na sua simplicidade, também por nossos políticos e governantes, a fim de que seja restituída aos últimos, incluindo os detentos, a dignidade e a esperança que devem ser reconhecidas a todos os seres viventes. Esperança e dignidade indispensáveis para retomar o caminho rumo a uma vida digna de ser vivida.


Resposta
Obrigado pelas suas palavras. Sinto o seu afeto pelo Santo Padre, e sou comovido por esta amizade que sinto de todos vós. E gostaria de dizer que penso com frequência em vós e rezo sempre por vós, porque sei que estão em uma condição muito difícil que, muitas vezes, ao invés de ajudar a renovar a amizade com Deus e com a humanidade, torna a situação ainda pior, também no íntimo. Venho, sobretudo, para mostrar-vos a minha proximidade pessoal e íntima, na comunhão com Cristo, que vos ama, como disse. Mas certamente esta visita, que desejei ser pessoal a vós, é também um gesto público que lembra aos nossos cidadãos, ao nosso governo, o fato de que há grandes problemas e dificuldades nas prisões italianas. E, certamente, o sentido dessas prisões é precisamente ajudar a justiça, e a justiça implica como primeiro fato a dignidade humana. Portanto, devem ser construídas de tal modo que cresça a dignidade, que seja respeitada a dignidade e vós possais renovar em vós mesmos o sentido de dignidade, a fim de responder melhor a essa vocação íntima. Ouvimos a ministro da Justiça, ouvimos como sente convosco, como sente toda a vossa realidade e, assim, podemos estar confiantes de que nosso governo e os responsáveis ​​farão o possível para melhorar esta situação, para ajudar-vos a encontrar realmente, aqui, uma boa realização de uma justiça que vos ajude a retornar à sociedade com toda a convicção da vossa vocação humana e com todo o respeito que exige a vossa condição humana. Portanto, eu, enquanto posso, gostaria sempre de dar sinais de o quanto é importante que essas prisões respondam ao seu sentido de renovar a dignidade humana e não de atacar essa dignidade, e de melhorar sua condição. E esperamos que o governo tenha a oportunidade e todas as possibilidades de responder a esta vocação. Obrigado.


Pergunta 2 – intercessão pelo sofrimento

Chamo-me Omar. Santo Padre, gostaria de perguntar-lhe um milhão de coisas, que sempre pensei, mas hoje, que posso, torna-se difícil para mim fazer-lhe uma pergunta. Estou emocionado por este evento, pois a sua visita aqui no cárcere é um fato muito forte para nós, detidos cristãos católicos, e, por isso, mais que uma pergunta, prefiro pedir-lhe que leve consigo o nosso sofrimento e o dos nossos familiares, como um cabo elétrico que se comunica com o Senhor Nosso. Amo-te.



Resposta
Também eu te amo, e sou grato por estas palavras, que tocam meu coração. Penso que essa minha visita mostra que eu gostaria de seguir as palavras do Senhor que me tocam sempre, onde diz, como li no meu discurso, no juízo final: " visitastes-me na prisão e era eu que vos esperava". Essa identificação do Senhor com os prisioneiros exige profundamente de nós e eu mesmo devo me perguntar: Agi de acordo com esse imperativo do Senhor? Tive presente essa palavra do Senhor? Essa é uma razão pela qual eu vim, porque sei que o Senhor está esperando por mim em vós, que tendes necessidade desse reconhecimento humano que tendes necessidade dessa presença do Senhor que, no Juízo Final, pergunta-nos exatamente sobre esse ponto e, por isso, espero que sempre mais possa, aqui, ser realizado o verdadeiro propósito dessas penitenciárias, de ajudar a reencontrar a si mesmo, de ajudar e continuar adiante consigo mesmo, na reconciliação consigo mesmo, com os outros, com Deus, para entrar de novo na sociedade e ajudar na progresso da humanidade. O Senhor vos ajudará. Nas minhas orações, estou sempre convosco. Sei que, para mim, é uma obrigação particular rezar por vós, puxá-los, por assim dizer, ao Senhor, no alto, porque o Senhor, através da nossa oração, ajuda a oração, é uma realidade. Exorto também todos a rezar, como um grande cordão, por assim dizer, que vos puxa para o Senhor e nos une entre nós, porque andando rumo ao Senhor somos também ligados entre nós. Estais seguros dessa força da minha oração e convido também os outros a unir-se convosco na oração e, assim, encontrar uma espécie de corda que segue rumo ao Senhor.



Pergunta 3 – retorno à família

Chamo-me Alberto. Santidade, parece-vos justo que, após ter perdido um a um todos os membros da minha família, agora que sou um homem novo, e há um mês papai de uma esplêndida menina de nome Gaia, não me concedam a possibilidade de voltar á casa, apesar de ter amplamente pago a dívida com a sociedade?



Resposta
Antes de tudo, parabéns! Sou feliz porque sois pai, que se considere um homem novo e que tenha uma esplêndida filha: isso é um dom de Deus. Eu, naturalmente, não conheço os detalhes do seu caso, mas espero que o quanto antes possa retornar para a sua família. Vós sabeis que, para a doutrina da Igreja, a família é fundamental, é importante que o pai possa ter a filha em seus braços. E, assim, rezo e espero que o quanto antes possa ter realmente nos braços a sua filha, estar com sua mulher e sua filha para construir uma bela família e, assim, colaborar com o futuro da Itália.



Pergunta 4 – presos são mal-vistos pela sociedade em geral

Santidade, sou Federico, falo em nome das pessoas detidas no G14, que é o setor da enfermaria. O que podem pedir os homens detidos, doentes e soropositivos ao Papa? Ao nosso Papa, já agravado pelo peso de todos os sofrimentos do mundo, pedem que reze por eles? Que lhes perdoe? Que lhes tenha presente no seu grande coração? Sim, é isso que nós queremos pedir, mas, sobretudo, que levasse a nossa voz onde não é ouvida. Estamos ausentes das nossas famílias, mas não na vida, caímos e, nas nossas quedas, fizemos mal aos outros, mas estamos nos levantando.

Pouco se fala de nós, na maioria das vezes de modo tão feroz, como que a querer eliminar-nos da sociedade. Isso faz-nos sentir subumanos. Vós sois o Papa de todos e nós rezamos para que não seja dilacerada a nossa dignidade, juntamente com a liberdade. Para que não seja mais dado assumido que recluso queira dizer excluído para sempre. A sua presença é, para nós, uma honra grandíssima! Os nossos mais queridos votos pelo Santo Natal, a todos.



Resposta
Sim, me haveis dito palavras memoráveis, caímos, mas estamos aqui para reerguer-nos. Isso é importante, essa coragem de levantar-se, de andar adiante com o auxílio do Senhor e com o auxílio de todos os amigos. Vós também dissestes que se fala de modo feroz sobre vós, infelizmente é verdade, mas gostaria de dizer não somente isso, há também outros que falam bem de vós e pensam em vós. Penso na minha pequena família papal – sou circundado por quatro consagradas leigas – e falamos frequentemente sobre esse problema, pois elas têm amigos em diversos cárceres. Recebemos também presentes deles e retribuímos esses dons. Portanto, essa realidade está presente de modo muito positivo na minha família e, penso, em tantas outras. Devemos suportar que alguns falem de modo feroz, falam de modo feroz também contra o Papa e ainda assim seguimos em frente. Parece-me importante encorajar a todos a pensar bem, que tenham o sentido dos vossos sofrimentos, tenham a sensação de ajudar no processo de reerguimento e eu farei a minha parte para convidar a todos a pensar de modo justo, não depreciativo, mas humano, pensando que qualquer um pode cair, mas Deus quer que todos cheguem a Ele. Devemos cooperar com o espírito de fraternidade e de reconhecimento também da própria fragilidade, para que possais realmente vos levantar e seguirdes em frente com dignidade e encontreis sempre respeitada a vossa dignidade, para que cresça e possam, assim, também encontrar a alegria na vida, porque a vida nos é dada pelo Senhor e com a sua ideia. E, se reconhecemos essa ideia do Deus que está conosco, também os passos obscuros têm o seu sentido, para dar-nos mais conhecimento sobre nós mesmos, para ajudar e tornarmo-nos mais nós mesmos, mais filhos de Deus e, assim e realmente, sermos felizes por sermos homens, porque criados por Deus também em diversas condições difíceis. O Senhor vos ajudará e nós estamos próximos a vós.




Pergunta 5 – absolvição dos pecados

Chamo-me Gianni, da Seção G8. Santidade, foi-me ensinado que o Senhor vê e lê o nosso interior. Pergunto-me porque a absolvição foi delegada aos padres? Se eu a pedisse de joelhos, sozinho, dentro de um quarto, dirigindo-me ao Senhor, me absolveria? Ou seria uma absolvição com um valor diferente? Qual seria a diferença?



Resposta
Sim: é uma grande e verdadeira questão aquela que me coloca. Eu diria duas coisas. A primeira: naturalmente, se vos coloca de joelhos e com verdadeiro amor a Deus reza para que Ele vos perdoe, Ele perdoa. Sempre foi Doutrina da Igreja que, se alguém, com verdadeiro arrependimento, isto é, não somente para evitar as penas e dificuldades, mas por amor ao bem, por amor a Deus, pede perdão, recebe o perdão de Deus. Essa é a primeira parte. Se eu realmente reconheço que fiz o mal e se, em mim, é reavivado o amor pelo bem, a vontade do bem, o arrependimento de não ter respondido a esse amor, e peço a Deus, que é o Bem, o perdão, Ele o dá. Mas há um segundo elemento: o pecado não é somente algo "pessoal", individual, entre mim e Deus; o pecado tem sempre também uma dimensão social, horizontal. Com o meu pecado pessoal, no entanto, ainda que ninguém saiba sobre ele, danifiquei também a comunhão com a Igreja, suja a comunhão com a Igreja, suja a humanidade. E, por isso, essa dimensão social, horizontal do pecado, exige que seja absolvido também no nível da comunidade humana, da comunidade da Igreja, quase corporalmente. Então, essa segunda dimensão do pecado, que não é somente contra Deus, mas concerne também a comunidade, exige o sacramento, que é o grande dom em que posso, na confissão, libertar-me disso e posso realmente receber o perdão no sentido também de uma plena readmissão na comunidade da Igreja viva, do Corpo de Cristo. E assim, nesse sentido, a absolvição requerida da parte do sacerdote, o sacramento, não é uma imposição que limita a bondade de Deus, mas, ao contrário, é uma expressão da bondade de Deus, porque me demonstra que também concretamente, na comunhão da Igreja, recebi o perdão e posso recomeçar de novo. Portanto, diria que é preciso manter presentes estas duas dimensões: a vertical, com Deus, e a horizontal, com a comunidade da Igreja e da humanidade. A absolvição do padre, a absolvição sacramental é necessária para, realmente, resolver-me, absolve-me desta prisão do mal e reintegrar-me na vontade de Deus, na óptica de Deus, completamente na sua Igreja, e dar-me a certeza, também quase corpórea, sacramental: Deus me perdoa, recebe-me na comunidade dos seus filhos. Penso que devemos aprender a compreender o sacramento da penitência neste sentido: a possibilidade de encontrar, quase corporalmente, a bondade do Senhor, a certeza da reconciliação.



Pergunta 6 – oração dos pobres

Santidade, chamo-me Nwaihim, seção G11. Santo Padre, no mês passado, esteve em visita pastoral à África, na pequena nação do Benin, uma das nações mais pobres do mundo. Vi a fé e a paixão desses homens por Jesus Cristo. Já vi pessoas sofrerem por causas diversas: racismo, fome, trabalho infantil... Pergunto-vos: eles colocam a esperança e a fé em Deus e morrem em meio à pobreza e violência. Por que Deus não lhes escuta? Será que Deus escuta somente aos ricos e poderosos que, ao contrário, não tem fé? Obrigado, Santo Padre.



Resposta
Deixe-me começar por dizer que fiquei muito feliz em vossa terra; a recepção por parte dos africanos foi muito calorosa, senti essa cordialidade humana que, na Europa, é um pouco obscurecida porque temos tantas outras coisas sobre nosso coração que tornam um pouco mais duro também o coração. Foi uma cordialidade exuberante, por assim dizer; senti também a alegria de viver, e essa foi uma das impressões belas para mim, que, apesar de toda a pobreza e todos os grandes sofrimentos que também vi – cumprimentei leprosos, vítimas da Aids, etc –, há uma alegria de viver uma alegria de ser uma criatura humana, porque há uma consciência original de que Deus é bom e me ama e o homem é ser amado por Deus. Portanto, essa foi para mim, digamos, a impressão preponderante, forte; ver em um país que sofre alegria, mais do que nos países ricos. E isso também me faz pensar que, nos países ricos, a alegria está muitas vezes ausente, estamos todos totalmente ocupados com muitos problemas: como fazer isso, como conservar isso, comprar de novo... E com a massa das coisas que temos, somos cada vez mais afastados de nós mesmos e desta experiência original de que Deus existe e é próximo a mim; e, por isso, diria que ter grande propriedade e ter poder não torna necessariamente alguém feliz, não é o maior presente. Também podem ser, digamos, algo ruim, que me impede de viver verdadeiramente. As medidas de Deus, os critérios de Deus, são diferentes dos nossos, Deus dá também a esses pobres alegria, o reconhecimento da sua presença, faz sentir que é próximo também no sofrimento, dificuldades, e, naturalmente, chama-nos a todos para que façamos todo o possível para sair dessas escuridão das doenças, da pobreza. É tarefa nossa e assim, ao fazer isso, também nós podemos nos tornar mais alegres. Portanto, as duas partes devem completar-se, nós devemos também ajudar para que também a África, esses países pobres, possam encontrar a superação desses problemas, da pobreza, ajudá-los a viver, e que eles possam ajudar-nos a compreender que as coisas materiais não são a última palavra. E devemos rezar a Deus: mostra-nos, ajuda-nos, para que haja justiça, para que todos possam viver na alegria de ser teus filhos!





Um preso lê uma oração

Santidade, chamo-me Stefano, seção G11.



"Oração atrás das grades"

Ó, Deus, dá-me a coragem de chamar-te de Pai.
Sabes que nem sempre chego a pensar em ti com a atenção que mereces.
Tu não te esqueces de mim, mesmo quando vivo distante da luz do teu rosto.
Faze-te próximo, apesar de tudo, apesar do meu pecado, grande ou pequeno, secreto ou público que seja.
Dá-me a paz interior, aquela que somente tu sabes dar.
Dá-me a força de ser verdadeiro, sincero; arranca do meu rosto as máscaras que obscurecem a consciência de que eu tenho valor somente porque sou teu filho. Perdoa as minhas culpas e dá-me ao mesmo tempo a possibilidade de fazer o bem.
Encurta minhas noites de insônia; dá-me a graça da conversão do coração.
Recorda-te, Pai, daqueles que estão fora daqui e que ainda me querem bem, para que, pensando neles, recorde-me que somente o amor dá vida, enquanto o ódio destrói e o rancor transforma em inferno as longas e intermináveis jornadas.
Recorda-te de mim, ó Deus. Amém!

Homilia

25 de dezembro - NATAL DO SENHOR - A LUZ NAS TREVAS

1ª leitura: (Is 9,1-6) Nascimento de um príncipe, luz para o povo nas trevas – No tempo de Isaías, em 732 a.C., a população da Galileia (Zabulon e Neftali) tinha sido deportada para a Assíria, e sua terra é como as sombras da morte. Mas surge uma luz: o nascimento de um filho real. Ele recebe títulos de inimaginável grandeza, exprimindo a confiança colocada nele. A Galileia oprimida torna-se imagem de toda a humanidade, e aquele em quem ela coloca sua esperança deve ser o Salvador de todos. * 9,1-3 cf. Mt 4,13-16; Jo 8,12 ­* 9,5-6 cf. Is 7,14; Nm 24,7.17; Zc 9,9-10.



2ª leitura: (Tt 2,11-14) Manifestou-se a graça de Deus – Entre a primeira manifestação da graça de Deus em Jesus e a segunda (no fim do tempo), situam-se o tempo da Igreja e a nossa História. Através de nós, o mundo experimentará algo do carinho de Deus. * 2,11-13 cf. Tt 3,4; 1Jo 2,16; 1Tm 1,11; 2Tm 1,10 * 2,14 cf. Sl 130[129],8; Ex 19,5; Ez 37,23; 1Pd 2,9; 3,13.



Evangelho: (Lc 2,1-14) Nascimento de Jesus e anúncio aos pastores – As esperanças messiânicas do A.T. oscilavam entre o surgimento de um novo rei davídico e um agir direto de Deus. No menino de Belém realizam-se ambas as expectativas: o Filho de Davi é Filho de Deus. Céu (anjos) e terra (pastores) o adoram. Ele é “o Senhor”, manifesta a glória de Deus e traz ao mundo a paz (cf. 1ª leitura) * cf. 1Sm 10,1; 16,1-13; Mq 5,1-4; Lc 19,38.

A tradição litúrgica criou três missas para a festa de Natal: a de meia-noite (missa do galo), a da aurora e a do dia. A missa da noite banha no mistério: a luz que brilha na noite (oração do dia, 1ª leitura); a vinda do rei de justiça que surge qual luz para o povo oprimido (1ª leitura); a mensagem do anjo aos mais humildes, os pastores na fria e longa noite do inverno (evangelho).



Nesta atmosfera de mistério, a liturgia desdobra o anúncio do Natal do Messias e salvador, Jesus, filho de Maria e de José e, sobretudo, filho de Deus. A 1ª leitura lembra o nascimento de um príncipe, no tempo de Isaías (700 a.C.), que significa esperança para o povo abalado pelas invasões assírias. O salmo responsorial comenta que tais fatos são a prova de que Deus governa o mundo com justiça e os povos segundo sua fidelidade. A 2ª leitura anuncia o tempo de Cristo como o tempo em que se manifesta a graça (amizade) de Deus, transformando a nossa noite em dia e luz.



O centro da celebração é o evangelho: o anúncio do nascimento do Salvador. Maria e José viajam a Belém, cidade de Davi, ancestral de José, para o recenseamento imposto pelo Império Romano. A criança nasce num abrigo fora do lugar de hospedagem, que já está cheio. A salvação nasce lá onde menos se espera. As primeiras testemunhas, escolhidas por Deus, são os pastores que vivem em meio aos animais, fora da “sociedade”. A eles se dirige a majestosa mensagem da paz messiânica proclamada pelos coros celestiais: “Glória a Deus nas alturas e na terra paz aos que são do agrado de Deus”.



De acordo com o evangelho de Lucas, a pobreza é o lugar da salvação. Deus se manifesta nas trevas da vida humana em seu Filho, que se assemelha aos mais abandonados. Pois Deus quer tornar-se próximo de todos, a começar pelos que menos contam. É isso que se chama graça (palavra chave da 2ª leitura), graça que se manifesta para todos (Tt 2,11). Essa graciosa aproximação de Deus realiza-se pelo que Jesus se assemelha aos que são chamados a serem sua própria gente (Tt 2,14). É o “divino comércio” desta noite, na qual o céu e a terra trocam seus dons, para que possamos participar da filiação divina daquele que assumiu nossa condição humana (oração sobre as oferendas; prefácio de Natal III). Para que esse intercâmbio fosse completo, Deus quis que seu filho assumisse não só a fina flor da sociedade humana, mas suas raízes mais humildes arraigadas na escuridão da terra.



JESUS NASCE POBRE

Sete séculos antes de Cristo, o povo de Israel andava oprimido pelas ameaças dos assírios, que já tinham deportado parte da sua população. Em meio a essas trevas – anuncia o profeta – aparece uma luz: nasce um novo príncipe, portador das esperanças que seus títulos exprimem: “Conselheiro admirável, Deus forte” (1ª leitura). Em Jesus, o significado deste nascimento recebe sua plenitude. Ele nasce como luz para o povo oprimido. Seu nascimento no meio dos pobres é o sinal que Deus dá aos pastores (gente bem pobre), para mostrar que o Messias veio ao mundo (evangelho). No meio das trevas, eles se encontram envoltos em luz...

Celebramos “a aparição da graça de Deus” em Jesus (2ª leitura). A escolha dos pobres como primeiras testemunhas evidencia a gratuidade: nada de aparato oficial. Nós podemos corresponder a esta graça por uma vida digna e pela viva esperança – que se verifica em nossa prática – da plena manifestação da luz gloriosa de Cristo, quando de sua nova vinda. Quem acolhe Jesus no meio dos pobres não precisa ter medo de sua glória...





Reunindo-se em torno do presépio, o povo exprime algo muito importante. Jesus nasceu num estábulo, no meio dos pobres, que foram os primeiros a adorá-lo, porque, para ser o Salvador de todos, tinha que começar pelos mais abandonados. Quem quer ser amigo de todos tem que começar pelos pequenos, pois, se começa com os grandes, nunca chega até os pequenos. A devoção popular do presépio merece valorização e aprofundamento, e não podemos permitir que ela degenere em algo puramente comercial. À luz do presépio, solidariedade com Cristo significa solidariedade com os pobres. Viver uma vida “digna” (de Cristo) não significa elitismo, mas solidariedade em que se manifestam a graça e a bondade de Deus para todos. (cf. Pe. Jaldemir Vitório SJ – Teólogo, doutor em exegese bíblica, Professor e Reitor da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Jesus do século XXI

Jesus, um mestre desafiador - Rodrigo Stankevicz

Jesus Cristo realmente trouxe uma nova visão para os conceitos humanos. Quebrou nossos paradigmas e padrões. Depois do Filho de Deus, nem o senso comum pode ser visto da mesma forma.

A São Paulo, após sua conversão, só restou dizer: “Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura” (cf. II Cor 5, 17). Tudo se faz novo, um novo olhar nasce a partir do encontro com o Senhor. Ninguém, na história da Bíblia, saiu da presença de Jesus da mesma forma, pois sempre algum desafio era lançado para a pessoa atraída por Cristo, além da transformação natural provocada pela força de Sua presença. Contudo, o mais interessante é que Jesus continua desafiando e atraindo as pessoas para Ele.

Gente humilde, de bom coração, que busca viver de um modo coerente, procurando sempre a verdade. Às pessoas assim, Deus tende a revelar-se.

Nosso Mestre, ainda hoje, traz um modo de viver diferente, capaz de dar sentido à vida, curar relacionamentos e ensinar o servir com gratuidade.

No relato do Evangelho, vemos vários exemplos que mudam os costumes e redimensionam as pessoas a uma releitura do modo com que vivemos. Em São Mateus 5, 44, Jesus nos impele: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.” Uma nova perspectiva surge com esse mandato.

O desafio está em superar o orgulho e a vaidade. Não basta amar e orar pelos nossos, isso todos fazem; o novo conceito é ir além, ao encontro do outro, amar aqueles que, aos nossos olhos, não merecem atos de caridade; amar quem não nos ama. Isto é revolução no pensamento, transformação do senso comum do homem de todos os tempos. Serviu para as pessoas daquela época, serve também para os homens de boa vontade de nossa época.

Todavia, aos que não se contentam com o ordinário, característica própria da juventude, nosso Senhor lança desafios ainda maiores. Continuamos em São Mateus, agora capítulo 19, 21 e 22. Um jovem procura pelo bom Mestre, ávido por algo profundo. No entanto, não tem coragem o suficiente para encarar o desafio ao qual Jesus lhe propõe: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me! Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens”.


“não vos contenteis com nada menos do que os mais altos ideais” Beato João Paulo II

Com isso, vemos que Cristo tem um intento para cada um de nós, e cada pessoa humana é vista de um modo muito particular por Ele. Foi o caso do jovem rico. Jesus tinha um plano a altura da profundidade do coração daquele jovem, porém, o moço, entristecido, não correspondeu ao chamado do Senhor.

Isto frequentemente acontece conosco. Jesus tem grandes projetos a nosso respeito, no entanto, nem sempre somos audaciosos nos caminhos desejados por Deus. Às vezes, vacilamos, pensamos muito pequeno, nossa visão se limita às coisas da terra. Apegados aos nossos bens terrenos, muitas vezes em nós mesmos, preferimos seguir tristes a aderir ao plano de Deus para nossa vida.

No Evangelho sinóptico de São Lucas, Jesus segue nos admoestando: “E se fazeis bem aos que vos fazem bem, que recompensa mereceis? Pois o mesmo fazem também os pecadores” (cf. Lucas 6,33). Sendo assim, conseguimos compreender que Jesus não nos quer igual a todos, tendo em mente que não somos melhores, mas chamamos a atitudes diferentes. Cristo Jesus nos convoca a viver uma verdadeira gratuidade em nosso doar-se. Nossas ações precisam ser movidas de compaixão e misericórdia. Servir sem nada esperar.

Como as palavras de Cristo continuam atuais! Percebemos isso com o avanço do capitalismo. Tudo precisa gerar lucro, “tempo é dinheiro”, porém isso fica a cabo dos outros, porque a nós cristãos cabe sermos livres de recompensas.

Viver esta proposta é remar contra a correnteza. E quem disse que Jesus não quis isto? O belo de Jesus é esta provocação, porque Ele sabe que o coração do homem precisa de desafios, de sentido, de ser como todo mundo entedia. Observamos isso ao longo da história. Quantos homens foram tocados e instigados a viver de um modo diferente! Temos a vida dos santos que foram conquistados por Jesus e souberam fazer a leitura da proposta de Cristo. Deste modo, a vida dessas pessoas servem de modelo para nós, pois viveram na carne esta experiência do encontro com o Senhor, responderam positivamente ao chamado de Deus. Se eles conseguiram, porque nós não iríamos conseguir também?

O Beato João Paulo II foi um desses grandes homens que marcaram a história da humanidade. Ele nos incita com belas palavras: “não vos contenteis com nada menos do que os mais altos ideais”. É isto que Jesus quer de nós, altos ideais, juntamente com uma vida instigante.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Em nome de Cristo

"....Por todos e por cada um elevamos a nossa oração, animados pela fé na vida eterna e no mistério da comunhão dos santos. Uma fé plena de esperança, iluminada também pela Palavra de Deus que escutamos.

A passagem do Livro de Oséias nos faz pensar imediatamente sobre a ressurreição de Jesus, sobre o mistério de sua morte e o redespertar da vida imortal. Esta passagem de Oséias – a primeira metade do capítulo VI – estava profundamente impressa no coração e na mente de Jesus. Ele, de fato, nos Evangelhos, retoma mais de um vez o versículo 6: “quero o amor e não o sacrifício, / o conhecimento de Deus mais que holocaustos”. Em vez, no versículo 2, Jesus foi ao encontro da paixão, com decisão pegou a via da cruz; Ele falava abertamente aos seus discípulos sobre aquilo que deveria acontecer em Jerusalém, o oráculo do profeta Oséias ressoava sob essas mesmas palavras: “O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão; e, morto ele, ressuscitará ao terceiro dia” (Mc, 9:31)

O evangelista diz que os discípulos “não entendiam esta palavra, e receavam interrogá-lo”(Mc 9:32). Nós também, diante da morte, não podemos não provar os sentimentos e os pensamentos ditados em nossa condição humana. Ele sempre nos surpreende e vai além de nós um Deus que está tão perto de nós, que não parar mesmo diante do abismo da morte, que na verdade passa, permanecendo por dois dias no sepulcro.

Mas justamente aqui atua o mistério do “terceiro dia”. Cristo assumo até o fim a nossa carne mortal, para que essa seja investida da gloriosa potência de Deus, do vento do Espírito Santo vivificante, que a transforma e a regenera. E o batismo da paixão (cfr Lc 12,50), que Jesus recebeu de nós e do qual escreveu São Paulo na Carta aos Romanos. A expressão que o Apóstolo utiliza - “batizados na sua morte” (Rm 6,3) – nunca cessa de nos surpreender, tal é a concisão com que resume o mistério dramático.

A morte de Cristo é a fonte de vida, porque nela, Deus revela todo seu amor, como numa imensa cascata, que faz pensar na imagem contida no Salmo 41: Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim. (v. 8). O abismo da morte é rompido por um outro abismo, ainda maior, que é aquele do amor de deus, assim que a morte não tem mais nenhum poder sob Jesus Cristo (cfr Rm 8,9), nem sobre aquele que, pela fé e pelo batismo, estão associados a Ele: “Se já morremos com Cristo – disse São Paulo - cremos que também com ele viveremos” (Rm 8,8). Este “viver com Jesus” é o cumprimento da esperança profetizada por Oséias “...e viveremos diante dele (Os 6:2). Antes que essa fosse reduvida a uma ilusão, a um símbolo derivado do ritmo das estações: “como chuva serôdia que rega a terra (Os 6,3).

No tempo do profeta Oséias, a fé dos Israelenses era ameaçada pela contaminação com as religiões naturalistas da terra de Canaã, mas esta fé não é capaz de salvar ninguém da morte. Em vez, a intercessão de Deus no drama da sua história humana não obedece a nenhum ciclo natural, abedece somente a sua graça e a sua fidelidade. A vida nova e eterna é fruto da árvore da Cruz, uma árvore que reflorece e frutifica pela luz e pela força que provém do sol de Deus.

Sem a Cruz de Cristo, toda energia da natureza permanece impotente diante da força negativa do pecado. Era necessário uma força benéfica maior que aquela que impulsiona o ciclo da natureza, um Bem maior que aquele mesmo da criação: Um Amor que provém do próprio “coração” de Deus e que, enquanto revela o sentido final do criado, o renova e o orienta para sua meta original e final.

Tudo isso vêm desses “três duas”, quando o “grão de trigo” cai sobre a terra, permanece ali pelo tempo necessário para encher a medida de justiça e misericórdia de Deus , e finalmente produz muitos frutos, não ficando só, mas como primaz de de muitos irmãos (cfr Gv 12,24; Rm 8,29).

Agora sim, graças a Cristo, graças a obra realizada Nela pela Santíssima Trindade, as imagens retratadas na natureza não são mais somente simbólicas, mitos ilusórios, mas nos falam de uma realidade.

No fundamento da esperança existe a vontade do Pai e do Filho, que escutamos no Evangelho desta Liturgia: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo (Jo 17:24). E entre eles, a quem o Pai deu a Jesus, estão também os veneráveis irmãos pelos quais oferecemos esta Eucaristia: esses “conheceram Deus por meio de Jesus, conheceram seu nome e a vida no Céu, na eternidade. Rendemos graças a Deus por este dom inestimável e, pela interseção de Maria Santíssima, rezemos para que este mistério de comunhão, que preencheu toda a existência deles, se cumpra plenamente em cada um deles.....".